Uso indiscriminado de fármacos anti-inflamatórios na saúde do atleta

O uso indiscriminado de fármacos anti-inflamatórios tem sido uma prática comum entre atletas e praticantes de atividade física, sendo justificada, principalmente, pelas atuações analgésicas em diversos tipos de dores agudas ou crônicas. Entretanto, este perfil é correlacionado com uma série de efeitos colaterais, que muitas vezes não ganham a devida importância1.

Como exemplo, um estudo realizado em ratos identificou que a alta exposição ao ibuprofeno promoveu alterações significativas na espermatogênese, por interferir na integridade do material genético presente nos espermatozoides2.

Para complementar esta atuação, um recente estudo clínico – que avaliou a capacidade testicular de indivíduos expostos ao ibuprofeno – mostrou correlação entre esta condição e supressão de vias de biogênese de testosterona, favorecendo ao quadro de hipogonadismo3. Este efeito negativo pode prejudicar a performance esportiva do atleta ou praticante de atividade física, uma vez que os hormônios sexuais desempenham importantes funções intracelulares, relacionadas ao processo adaptativo4.

Outra análise, realizada com 20 indivíduos submetidos ao uso de diversos tipos de fármacos anti-inflamatórios por 8 semanas, concomitante à execução de treinamento resistido, mostrou positiva associação entre a conduta e redução da função mitocondrial. Entretanto, os autores ressaltam que as características do treinamento também influenciam em reações de fosforilação mitocondrial e, portanto, não devemos levar em consideração o uso do fármaco de forma isolada – e sim, os outros fatores que acompanham o seu uso5.

Ainda há poucas publicações bem conduzidas que enfatizam estas consequências, sendo necessária avaliação mais criteriosa sobre o assunto. Embora a atuação analgésica seja relevante no meio esportivo, é importante ressaltar que o uso frequente e sem orientação de um profissional capacitado pode gerar impactos negativos na saúde do atleta e em sua performance esportiva. Assim, é importante o acompanhamento multidisciplinar, para reduzir a necessidade desta estratégia ou minimizar seus malefícios quando houver a necessidade. O nutricionista tem papel fundamental nesta avaliação, por promover disponibilidade de nutrientes para o adequado funcionamento celular nestas condições.

Referências Bibliográficas:

1-MOORE, R.A.; DERRY, S.; STRAUBE, S. et al. Faster, higher, stronger? Evidence for formulation and efficacy for ibuprofen in acute pain. Pain; 155(1):14-21,2014.

2-KRISTESEN D.M.; DESDOITS-LETHIMONIER, C.; MACKEY, A.L. et al. Ibuprofen alters human testicular physiology to produce a state of compensated hypogonadism. Proc Natl Acad Sci USA. 2018. doi: 10.1073/pnas.1715035115.

3-ROODBARI, F.; ABEDI, N.; TALEBI, A.R. Early and late effects of ibuprofen on mouse sperm parameters, chromatin condensation, and DNA integrity in mice. Iran J Reprod Med; 13(11):703-10,2015.

4- SLIMANI, M.; BAKER, J.S.; CHEOUR, F. et al. Steroid hormones and psychological responses to soccer matches: insights from a systematic review and meta-analysis. PLoS One; 12(10):e0186100,2017.

5-CARDINALE, D.A.; LILA, M.; MANDIC, M. et al. Resistance training with co-ingestion of anti-inflammatory drugs attenuates mitochondrial function. Front Physiol; 8:1074,2017.

 

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